A confiança entre empresas, poder público e
sociedade civil foi o ponto de partida para que Medellín, na Colômbia,
superasse o período de violência vivido até o fim dos anos 1990 e se tornasse
referência mundial em desenvolvimento urbano, em uma mudança que foi muito além
das obras. Essa trajetória foi detalhada na palestra “Cidades e Prosperidade”,
promovida pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves
(CIC-BG), por meio do Qualifica Bento, em 4 de novembro, na sede da entidade.
Especialistas no tema, sobretudo pela vivência
integral desse processo, o antropólogo Santiago Uribe Rocha, diretor do
Escritório de Resiliência de Medellín, e Jean-Édouard Tromme, consultor com
mais de 20 anos de atuação em projetos de cooperação internacional, compartilharam
lições inspiradoras. O encontro teve apoio do InovaBento, do Bento +20 e da
Secretaria Municipal de Cultura.
Nos anos 1990, Medellín chegou a ser apontada como
uma das cidades mais violentas do mundo. A reconstrução passou pelo metrô,
pelas bibliotecas parque e pelo urbanismo social nas periferias, mas essas
intervenções serviram como instrumentos de algo maior: uma transformação de
mentalidade, baseada em confiança, solidariedade e senso de pertencimento.
Essa postura nasceu dentro do empresariado. Nas
décadas de 1970 e 1980, para barrar o dinheiro do narcotráfico, os quatro
maiores grupos empresariais da cidade passaram a ser sócios uns dos outros e,
em seguida, compraram quase 200 empresas locais que corriam o risco de cair nas
mãos do crime. O objetivo era proteger a reputação de toda a cidade. “Tinha
duas mensagens importantes dos empresários: confiar no outro e proteger o
capital e a credibilidade do território e do setor empresarial”, resumiram.
Enquanto os governos mudavam a cada quatro anos,
sociedade civil organizada e empresários garantiram a continuidade do projeto
de cidade. Há mais de três décadas, na primeira sexta-feira de cada mês, mais
de mil pessoas se reúnem para discutir o futuro de Medellín, em grupos de
trabalho liderados pela iniciativa privada. A participação é voluntária, o
empresário precisa comparecer pessoalmente e a pauta nunca pode ser o interesse
do próprio setor. Nos anos 1990, a cidade também criou a política de Cultura
Cidadã, dedicada a ensinar a convivência urbana e a fortalecer o orgulho dos
moradores pelo lugar onde vivem.
O mesmo princípio orientou o urbanismo social, que
levou a melhor arquitetura às áreas mais pobres. Com a meta de se tornar uma
cidade educadora, Medellín construiu sua primeira biblioteca parque na
periferia e, a partir dela, ampliou a rede até somar dezenas de unidades,
acompanhadas de escolas, creches, centros culturais e casas de música. Todas as
bibliotecas ficam a poucos minutos de caminhada de uma estação do sistema de
transporte público, que inclui teleféricos e foi concebido como ferramenta de
mobilidade social. “O que você precisa é conectar pessoas com oportunidades”,
explicou o antropólogo.
Três tarefas para o empresariado
Ao aproximar a experiência colombiana da realidade
da Serra Gaúcha, Santiago Uribe Rocha sugeriu que empresários de diferentes
setores passem a se reunir de forma sistemática para pensar o futuro de suas
cidades em três frentes. A primeira envolve definir quais empresas o município
deseja abrigar e do que elas vão precisar em talento, capital e tecnologia. Na
segunda, o grupo deve desenhar o modelo de cidade que imagina. A terceira trata
da forma como o setor produtivo vai participar dessa construção ao lado de
universidades, terceiro setor, poder público e jovens, sem impor uma visão
única. O Pacto por Medellín ilustra o alcance desse caminho. Quando foi criado,
o compromisso recebeu a assinatura de apenas 500 empresas, em uma cidade de 2,5
milhões de habitantes. Atualmente, mais de 5 mil organizações integram a lista
de signatários. “Uma sociedade que abre as portas ao diálogo, que abre as
portas à escuta ativa de outros e que se junta para falar junto sobre o futuro
da cidade que querem imaginar, é uma sociedade que está pronta e que tem a
maturidade para aceitar qualquer projeto de transformação urbana e social”,
defendeu Santiago.
Alinhamento entre setores
Na abertura, o presidente do CIC-BG, Daniel
Panizzi, destacou a cooperação entre diferentes protagonistas. “O alinhamento
entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil é decisivo para que
os objetivos sejam alcançados, como muito bem demonstrou a história de
Medellín. Em Bento Gonçalves, e na região de forma geral, essa filosofia também
já faz parte do cotidiano, com união diante dos desafios da comunidade”,
afirmou.
Integrante de uma missão que visitou a cidade em
junho, o secretário municipal de Cultura, Evandro Manes Soares, destacou a
maneira como Medellín se transformou a partir desses princípios. “Esse modelo
mostra o que um município conquista quando planejamento, poder público, setor
privado e sociedade acreditam no mesmo projeto de desenvolvimento”, completou.
Legenda: Santiago Uribe Rocha, Daniel Panizzi e Jean-Édouard Tromme
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