A Odisseia,
de Christopher Nolan
Por Gabriel Elias Josende
Fui ao cinema e assisti à mais nova adaptação de “A
Odisseia”, texto milenar, um dos fundadores dos mitos gregos e da literatura
ocidental. Quem me conhece sabe do meu fascínio pela mitologia. Sou um eterno
apaixonado por deuses, semideuses, heróis, suas aventuras e desventuras. Assim,
o que não faltaram foram pessoas que me perguntaram pela minha opinião em
relação ao filme de Christopher Nolan, lançado mundialmente nos cinemas neste
mês. Então, resolvi falar sobre isso para aproveitar o timing do lançamento.
As pessoas esqueceram o que é uma
adaptação
O que mais vi foram comentários dos mais absurdos. Viúvos e
viúvas de Homero que – aqui coloco a mão no fogo – aposto que nunca nem leram
sua obra na íntegra. O que vi foi uma série de acusações racistas (teve uma
galera aí indignada por Helena ser interpretada por Lupita Nyong’o, atriz preta
e de ascendência queniana), bem como críticas à velocidade dos acontecimentos,
à falta de interação com os deuses e por aí vai. É lógico que um texto com mais
de 3 mil anos precisa ser adaptado ao nosso tempo. Trata-se de um poema épico
com mais de 12 mil versos, com métrica fixa, profundidade e camadas
intermináveis de interpretação. O desafio enfrentado por Nolan foi trazer às
telas aquela que é a obra mais influente do Ocidente, e uma das mais influentes
de toda a história do mundo. É inegável que faltou algum aprofundamento, mas
adaptar 12 mil versos em menos de 3h não é tarefa fácil. Nolan é,
indiscutivelmente, um dos maiores cineastas do nosso tempo, responsável por
sucessos como “Oppenheimer” e “Interestellar”. Ouso dizer que “A Odisseia”
tenha sido seu trabalho mais desafiador até o momento.
Uma vitória para a cultura clássica
Se há um impacto verdadeiramente positivo nisso tudo, é o
aumento do interesse pela literatura grega. No mundo todo, as edições de
“Ilíada” e “A Odisseia” têm se esgotado rapidamente, bem como tem aumentado
drasticamente a procura por obras de cultura clássica: Eurípedes, Ésquilo,
Sófocles e Aristófanes surfam na onda. Essa é, para mim, a grande vitória nisso
tudo. Os mitos gregos vivem, e quem sabe agora, como não viviam há muitos anos.
Élate mazí mou, Dodecatheon!
Não ouse duvidar
Duvidar do meu amor é duvidar do ar na atmosfera. É duvidar
que Hércules venceu as feras e que Penélope espera Ulisses voltar.
Duvidar do meu amor é duvidar do horizonte. Da doma de
Pégaso por Belerofonte, é duvidar de um monte de coisas sem pensar.
Duvidar do meu amor é duvidar da física e da inércia. É
duvidar da própria Grécia, até do príncipe da Pérsia e de cada gota do mar.
Duvidar do meu amor é duvidar da própria Afrodite. É duvidar que o Olimpo nos
permite viver a história que, acredite, irá nos levar até o altar.
Duvidar do meu amor é duvidar do infinito. É sentir-se
sempre aflito, é duvidar do que é bonito, é não saber o que é amar.
Poema autoral.
Vida longa aos mitos!
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